Sob o luar de Nalu

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Blog - Institucional
- 16/02/2021 13:01:55

A representatividade contribui para a busca e realização de sonhos

Nasci há quase meio século. Tive uma infância bonita, simples e pueril. Ao lado de minha irmã, brincávamos de casinha, inventávamos famílias e a rotina de uma casa, similar ao que vivíamos. E claro, havia personagens em nosso mundo lúdico. Lembro-me que queria ser repórter e professora. Adorava (adoro!) falar e aprender. E nessa busca do conhecimento, sempre senti falta de alguma boneca, ou brinquedo, que representasse meus sonhos e minha personalidade. Ninguém parecia comigo, exceto as bonecas de pano, produzidas por mamãe. Nina virou um xodó: a boneca feita com retalhos, pretos e coloridos. 

 

Com o passar do tempo, os brinquedos ficaram de lado e os olhinhos fixos na televisão e nos contos de fadas. Ah, mamãe nos apresentou esse universo lindo, dos livros, com rapidez, por isso, lemos desde os cinco anos. Paixão imediata por aquelas folhas coloridas e encantadoras, com desenhos e muitas figurinhas. Mas onde estavam os protagonistas negros? Busquei nos desenhos animados – à época, estadunidenses – de Walt Disney, Hanna-Barbera, Universal Pictures, Pica-Pau e afins, algo que pudesse identificar com meu físico. Nada! 

Inquieta, vasculhei todos os livros de histórias infantis, mas as fadas e os super-heróis eram brancos, com olhos coloridos e cabelos longos, escorridos. Quando encontrava uma menina, nas histórias, com os cachos iguais aos meus, também não via identidade: as mexas eram louras e o rosto rosado. Não desisti! Na TV Aberta, nacional, havia um programa imperdível com uma cozinheira, um menino de uma perna e um tio que usava chapéu e fumava cachimbo. Amava a série, porque havia personagens pretos. Finalmente encontrara “minha família”. Não demorou muito para outros questionamentos. A partir daí, descobri o que era ser diferente, mas ainda sem pensar em etnia. Racismo não se discutia, na década de 70. Povo preto era subalterno. Ponto!

E tem mais: uma das fortes frustrações foi nunca ter tido uma boneca “Barbie” que fosse professora ou jornalista, com a minha pele. A condição financeira, também, era desfavorável. Passei a colecionar e perseguir tudo o que tinha com elefantes. Eles são escuros e andam sempre juntos. Achei meu mundo. Risos. Por um tempo, durante a infância-juventude, esqueci a pele e a alegria passou a ser com a “Mulher Maravilha”, por conta dos cabelos cacheados e pretos. Daí, cresci.

Em cinco décadas, agora é que noto a mudança desses cenários. Faz poucos anos, o segmento de brinquedos passou a produzir personagens pretos, o cinema criou super-heróis, quadrinhistas desenham histórias com protagonismo negro, existem princesas e até atores principais na teledramaturgia; escolas adotaram literaturas com escritores étnicos. No Brasil, mais da metade da população é negra e falar desse assunto é primordial, para não dizer obrigatório. Vivemos o racismo estrutural – escancarado – e temos o dever de reeducar a população para que as novas gerações entendam as diferenças e a importância do respeito pelo outro, independente de seu tom de pele. 

E toda essa narrativa para agradecer a honra de conhecer a personagem Nalu - a menina que amava a lua, com o sonho de ser astronauta. Afrodescendente, sonhadora e (ainda) com poucas referências, ela traz a reflexão do “ser” para acontecer. Ela representa a mim, e todo o povo preto para seguir, sem perder a ternura.

Divirta-se e boa leitura! 

Por Aurora Seles - Jornalista, Professora e Assessora de Comunicação. Especializada em Cultura, Educação e Relações Étnico-Raciais pela USP. 

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