Do conto a restauração da própria história. A importância dos contos infantis no desenvolvimento psicoemocional.

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Blog - Institucional
- 01/06/2021 16:16:27

            Sempre gostei de ouvir, ler e contar histórias. E não importava se os contos eram de fadas, heróis, animais falantes, florestas encantadas ou mesmo sobre objetos que, na minha opinião, não eram nada inanimados. O que eu percebia era que cada história abria para mim um portal mágico que me transportava para reinos distantes onde tudo era possível. Cada aventura aguçava a minha imaginação, enriquecendo minha memória, criatividade e capacidade de encontrar soluções ou alternativas para situações que, a meu ver, eram muito complicadas como, por exemplo, aprender a lidar com um irmão que era tão mal-humorado quanto o Capitão Gancho.

            Não foram poucas as vezes em que, para enfrentar os meus medos, recorria ao meu mundo imaginário, buscando me lembrar de trechos das histórias de meus personagens preferidos que me traziam uma possibilidade para resolver meus dilemas ou mesmo compreender as recomendações que minha mãe me dava e que, na maioria das vezes, não faziam muito sentido, mas que lendo os contos ficavam mais claros para mim. Foi com a ajuda da historinha da chapeuzinho vermelho que compreendi o quanto era perigoso falar com estranhos, haja vista o que aconteceu com a vovozinha depois que chapeuzinho contou para onde estava indo. Com a pequena Sereia, descobri que era melhor não beber nada oferecido por pessoas que eu não conhecia. Já imaginou se ao invés de refrigerante fosse uma poção mágica que me fizesse perder a voz e eu não pudesse falar nunca mais?! Eu preferia não correr o risco.

            Também foi através das histórias infantis que consegui verbalizar como me sentia com a dor de perder alguém. Quando ouvi a história do Bambi pela primeira vez, experimentei aquilo que anos mais tarde conheceria como empatia. A tristeza daquele animalzinho me atravessara, chorei muito, em algum “pedacinho” dentro mim eu o compreendia, afinal de contas, já havia passado por isso, só que no meu caso era pela morte do meu pai.  

            Uma das coisas que mais me fascina nos contos é o poder da linguagem simbólica que consegue traduzir com ludicidade, aquilo que a linguagem formal, amiúde, não alcança, ajudando-nos a entrar em contato com sentimentos, expressar emoções e acessar sensações que, em um primeiro momento, podem ser difíceis de entender. Recordo-me de uma vez em que me senti excluída na escola, era como se eu fosse a pior pessoa do mundo. Nessa época, conheci a história do patinho feio. Posso dizer que foi identificação à primeira vista. Com o desfecho daquele conto, o qual li e reli inúmeras vezes, e confesso que em certas ocasiões ainda releio, pude perceber que eu precisava conhecer pessoas que tinham interesses análogos aos meus, ao invés de tentar me enquadrar no jeito de ser dos outros na tentativa frustrada de ser aceita por eles.

            Sempre admirei os ensinamentos e os novos caminhos que os contos podem indicar, por meio deles é possível encontrar maneiras para assimilar as mudanças que a vida nos convoca. Um exemplo de uma mudança assustadora, foi quando saí do “prezinho” para entrar na primeira série. Nesse momento, eu precisava avaliar minhas opções, por isso “convidei” o Peter Pan. Diante dessa nova aventura escolar, no intento de diminuir a minha ansiedade, comecei a imaginar que se algo desse errado, ao menos eu poderia fugir com ele para “terra do nunca”. Você não sabe como uma garantia dessas pode ser encorajadora para uma menina que vivia “trancada” em casa, como a Rapunzel na torre, enquanto a mãe precisava ir trabalhar.

            Pensando nas fases do desenvolvimento, as histórias e contos nos ajudam a compreender, expressar e lidar com diversas situações. Acredito tanto nisso que hoje, como psicóloga, volta e meia recorro à literatura infantil, principalmente quando preciso de auxílio em meu trabalho. Através das metáforas, dos contos de fadas, das histórias infantis, dos mitos, das poesias e da arte em suas mais variadas vertentes, estimulo meus pacientes de todas as idades a entrar em contato com seu repertório pessoal, conectando-se a riqueza de seu mundo interior, tendo a possibilidade de integrar aspectos de sua vida que não (re)conhecem ou desconhecem e que pela via do lúdico conseguem acessar e nomear.  

            Por esses e tantos motivos que me tornei uma incentivadora da leitura e da narrativa de contos infantis, os quais precisam ser praticados desde a primeira infância, não somente porque estimulam a criatividade, mas, sobretudo, porque é um recurso riquíssimo que favorece o processo de identificação, de diferenciação, de expressão, de compreensão e do desenvolvimento sadio de nossas emoções. Quanto mais cedo desenvolvermos o hábito da leitura e da narrativa de histórias, mais enriqueceremos nossa capacidade simbólica, a qual se converte em ferramenta preciosa para nos ajudar a encontrar sentido e significado à nossa existência.   

            Assim, no meu ponto de vista, e de diversos profissionais da educação e da saúde, é fundamental estimular a leitura desde a tenra idade, de modo a ampliar o repertório cognitivo e emocional da criança que se estenderá para a vida adulta. Sem dúvida, o contato com as histórias e contos infantis pode ser em um bom recurso para experimentar novas formas de ressignificar, construir, descontruir e (re)construir nossas narrativas, ajudando-nos a restaurar a nossa própria história.

Vanessa Brito Psicóloga, Gestalt-terapeuta e Relações Públicas.
 

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